sábado, 30 de janeiro de 2016

Ensaio Sobre a Cegueira




Olá manolinha(o)s!

Hoje na #horadaleitura apresentarei um livro do português José Saramago, um autor contemporâneo conhecido por não usar uma escrita muito convencional em suas narrativas, por seus livros fantásticos e altamente reflexivos merecedores do Nobel de Literatura em 1998 e do Prêmio Camões.


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 "O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos."

O livro Ensaio sobre a cegueira tem início em um semáforo onde um homem aguarda pacientemente a abertura da passagem para continuar sua viajem quando de repente cega. Um homem o ajuda a chegar a sua casa e rouba seu carro e também cega.

A mulher do primeiro cego, cega após um tempo ajudando seu marido e o policial que ajuda o ladrão do carro do marido desta, cega também.

        Em um centro oftalmológico o primeiro cego vai procurar por ajuda especializada e os pacientes que ali se encontram pouco a pouco se cegam.  A rapariga de óculos escuros que cega em um motel e o homem com quem se deitara, o menino estrábico e o velho da venda preta, todos se encontram sob um mar de leite ou uma cegueira branca.

O doutor que atendera ao primeiro cego, inquieto com o caso resolve estudar e em meio aos estudos cega. Junto à sua esposa avisam as autoridades que podem tomar alguma providência.

Casos da cegueira branca começam a se espalhar descontroladamente e o governo resolve manter os cegos e todos os que tiveram contato com eles presos em quarentena sob condições desumanas. Neste local onde, vão dia após dias chegando mais cegos até sua lotação exceder o limite, esses personagens se encontram, e ali não há por quê designarem-se pelos nomes. Dentro da narrativa são reconhecidos por características individuais, não há diferença se ninguém vê, todos são iguais, cegos.

A mulher do doutor é a única que escapa do mal branco, mas resolve mentir para acompanhar o marido.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Dentro desse manicômio a única coisa que recebem é a comida e materiais básicos de higiene sendo vigiados a todo tempo por soldados que têm ordem de os matarem se ultrapassarem um limite de passagem. A desorganização própria das condições a que foram submetidos cria confusões dentro do local e grupos são montados com disputas internas de comando, causando brigas, mortes, estupros entre outras situações que os deixam ao nível mais baixo que um ser humano pode chegar.

"... discutir, por exemplo, se existe uma relação directa entro os olhos e os sentimentos, ou se o sentido de responsabilidade é a consequência natural de uma boa visão, mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”.

Um incêndio acaba sendo a "salvação" daqueles cegos que passam a ser condenados a viver em um mundo onde todos são cegos, não há mais autoridades, ninguém possui mais o que era seu, as casas foram invadidas, há cegos vagando à procura de comida, supermercados invadidos e saqueados. Em muitos momentos o livro passa a impressão de uma espécie de apocalipse e em outros parece que o leitor está dentro de uma narrativa de zumbi.

Aquele grupo que permaneceu junto durante a quarentena resolve continuar como um grupo e utilizam-se dos olhos da mulher do médico para viverem, isto é, arrumarem comida, encontrar suas casas, etc.

As esperanças pouco a pouco esvaem-se, e diante de sua perda e da busca por sobrevivência o homem enxerga-se em seu interior, ou descobre a que ponto pode chegar para sobreviver.

"... sem olhos os sentimentos vão tornar-se diferentes, não sabemos como, não sabemos quais, tu dizes que estamos mortos porque estamos cegos, ai está..."


"A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

O livro não usa nomes, a meu ver, Saramago visa deixar de lado os rótulos, fazendo-nos enxergar-nos como humanos, humanos que estão dispostos a tudo pela sobrevivência e que apesar de muitas diferenças individuais são todos iguais..

"... Então não há futuro... do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse. Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano como antes cria ser, eu, por exemplo, matei um homem”.

          Humanos que se adaptam, e que ainda que vejam, adaptam-se e vivem uma vida de cegos.

  "O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos."

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

             Não há diferença entre viver na quarentena, preso, vigiado e como um sobrevivente e livre, em ambos os lugares os homens são puro instinto na luta pelo alimento, esquecendo-se do outro. É um livro reflexivo, que toca no materialismo, no individualismo e na acomodação humana. Me pergunto como devia ser a mente de Saramago e invejo-o por talvez não ser tão cego quanto nós somos.

                   Não precisamos de muito para após a leitura identificarmos nossas cegueiras, questões levantadas na trama como o futuro, que nos move atualmente nos carros, metrôs, ônibus, em nossos empregos, em nossas casas. Pensamos em nós, em nossa sobrevivência, na satisfação de nossos desejos e ambições. 

                  Estamos livres ou cegos por nossos medos e vontades ? Foram essas algumas das questões que passaram por minha mente após o término do livro. Sem dúvidas muitas questões permanecerão, pois creio que jamais esquecerei desta leitura.



O livro virou filme
Ensaio sobre a Cegueira ou Blindness, em inglês é um filme de 2008 produzido pelo Japão, Brasil e Canadá, dirigido por Fernando Meirelles e com roteiro baseado no livro que, apesar de em muitas cenas haver fidelidade ao roteiro, o filme no geral não consegue transmitir a ideia do livro, tarefa demasiado difícil, já que no livro ela também não fica explícita.



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